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Eduardo Nagai
O Seu Guia Literário
Textos

A COLEÇÃO DE AMANHECERES

Conheci, há muitos anos, um homem que dizia colecionar amanheceres.

Quando ouvi aquilo pela primeira vez, imaginei que fosse fotógrafo. Pensei em gavetas cheias de negativos, discos rígidos abarrotados de imagens ou paredes cobertas por quadros.

Não era nada disso.

Ele não possuía uma única fotografia.

Todas as manhãs, saía de casa alguns minutos antes do nascer do sol e caminhava até um banco de madeira voltado para o leste. Sentava-se, esperava a claridade vencer a noite e, quando o primeiro raio de luz aparecia, levantava-se e voltava para casa.

Era só isso.

Um dia perguntei por que fazia aquilo.

Ele respondeu com a serenidade de quem nunca precisou convencer ninguém:

— Porque nenhum amanhecer se repete.

Achei exagero.

O sol, afinal, nasce todos os dias.

Mas continuei pensando naquela frase durante semanas.

Até que comecei a reparar.

Havia manhãs em que o céu parecia pintado com pincéis delicados. Em outras, uma névoa escondia quase tudo. Certos dias eram silenciosos; noutros, os pássaros pareciam disputar quem cantava primeiro. Às vezes, o vento chegava antes da luz. Em outras ocasiões, era o perfume da terra úmida que anunciava o começo do dia.

O sol era o mesmo.

Quem mudava era o mundo ao redor.

E, talvez, quem mais mudasse fosse quem o observava.

Percebi então que a rotina tem uma fama injusta.

Costumamos acusá-la de repetir os dias, quando, na verdade, somos nós que deixamos de percebê-los.

Há uma enorme diferença entre viver cem dias e viver um único dia cem vezes.

Desde então, sempre que sinto que as horas começaram a passar depressa demais, lembro-me daquele homem.

Imagino-o caminhando lentamente até seu banco de madeira, sem pressa de chegar a lugar algum.

Talvez ele nunca tenha colecionado amanheceres.

Talvez tenha colecionado versões de si mesmo.

Porque cada manhã, sem fazer barulho, transformava um pouco aquele homem.

E acredito que faz o mesmo conosco.

Basta estarmos acordados não apenas de olhos abertos, mas de espírito desperto.

Que o dia de hoje não seja apenas mais uma página no calendário. Que ele seja um amanhecer que, por algum motivo simples e inesperado, mereça ser guardado na memória.

Prof Eduardo Nagai
Enviado por Prof Eduardo Nagai em 29/07/2026
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