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Eduardo Nagai
O Seu Guia Literário
Textos
Paixão à Distância
Eu nunca gostei de aplicativo de namoro.

As pessoas sempre pareciam falsificadas demais. Homens sorrindo em trilha, segurando peixe, fazendo pose em academia, escrevendo frases motivacionais como se fossem gurus espirituais e não caras que respondiam “sumiu rs” três semanas depois.

A minha irmã baixou o tinder para mim, depois de eu autorizar quando insistiu por 2 anos inteiros, insuportáveis.

Doze horas em uma cidade.
Mais doze em outra.
E de cidade em cidade, vou me arrastando para depois "descansar" nas próximas vinte e quatro de folga que nunca pareciam descanso de verdade.

Meu corpo vivia em modo automático.

Eu acordava sem saber em qual cidade estava.
Dormia ouvindo monitor cardíaco na cabeça.
Tomava café ruim em copo de plástico e fumava escondida perto do estacionamento do hospital como se aquilo ainda aliviasse alguma coisa.

Naquela noite, eu estava deitada na cama, com a lombar queimando de dor e a marca do elástico do uniforme ainda na pele, passando pessoas pro lado sem olhar direito.

Até aparecer ele.

Não era bonito de um jeito óbvio.
Não tinha foto sem camisa.
Não tinha frase de efeito.

Só algumas fotos, algumas informações genéricas sobre personalidade e gostos estranhos e uma breve vio que dizia assim:
“Professor de escola pública sobrevivendo à cafeína e adolescentes.”

Eu ri.

Acho que foi isso que me fez dar like nele perfil de um louco como eu.

Minutos depois apareceu a mensagem.

— Oi, sou Professor.

Só isso.

Eu respondi:

— Oi, sou enfermeira.

Ele:

— Acho que nós dois nos perdemos na vida.

Eu ri de novo.

E fazia tempo que eu não ria sozinha olhando pra tela de um celular.

A conversa foi estranha desde o começo.

Não tinha joguinho.
Não tinha aquela falsidade educada de aplicativo.

Ele me perguntou como tinha sido meu plantão.
Eu respondi:
— Um paciente vomitou em mim às quatro da manhã.

Ele respondeu:
— Um aluno meu colocou fogo numa lixeira hoje.

Eu fiquei olhando pra mensagem por alguns segundos.

Depois mandei:
— Acho que você ganhou.

Ele:
— Não sei. Adolescente é mais perigoso que bactéria.

Foi aí que eu pedi o WhatsApp dele.

Descobri que ele dava aula em três escolas estaduais diferentes.

Escola Joaquim de Toledo.
Escola Bento da Silva Cesar.
Escola Álvaro Guião.

Eu nem entendia como uma pessoa conseguia sobreviver daquele jeito.

Ele acordava cedo demais.
Passava horas em ônibus e estrada.
Entrava numa escola.
Saía correndo pra outra.
Tentava ensinar gente que não queria aprender.

Às vezes ele mandava áudio dentro do ônibus.

A voz cansada.

— Hoje eu tentei explicar revolução francesa e um menino perguntou se Napoleão tinha TikTok.

Eu ria fumando na janela do hospital.

— E tinha?

— Você é insuportável.

Eu gostava quando ele me chamava assim.

Ele começou a fazer parte da minha rotina sem pedir licença.

Mensagem às cinco da manhã:

“Sobreviveu?”

Mensagem às onze da noite:

“Comeu alguma coisa hoje?”

Mensagem às duas:

“Tá acordada ainda?”

Sempre estávamos acordados.

Era como se o resto do mundo tivesse horários normais e nós dois vivêssemos num fuso diferente.

Eu falava pouco sobre mim no começo.

Nunca fui boa nisso.

Mas ele tinha um jeito calmo que desmontava minhas defesas devagar.

Uma madrugada, no estacionamento vazio do hospital em Casa Branca, eu mandei foto da minha tatuagem: uma fênix que começava na coxa e subia pelas costas.

Ele demorou alguns segundos pra responder.

Depois:

“Agora entendi.”

— Entendeu o quê?

“Você parece alguém que já precisou renascer várias vezes.”

Aquilo me acertou de um jeito irritante.

Porque era verdade.

Eu era brava.

Todo mundo dizia isso.

Os técnicos tinham medo de mim.
Médico folgado não gostava de trabalhar comigo.
Paciente bêbado me xingava e eu xingava de volta.

Mas com ele era diferente.

Ele não tentava me acalmar.
Não mandava eu “ficar tranquila”.
Não me tratava como uma mulher difícil.

Só escutava.

E respondia.

Às vezes com ironia.
Às vezes com silêncio.
Às vezes com áudios longos sobre alunos que dormiam na aula porque trabalhavam o dia inteiro.

Ele ainda acreditava nas pessoas.

Mesmo cansado.
Mesmo destruído.

Acho que foi isso que começou a me apaixonar.

Teve uma noite em que eu saí do plantão chorando.

Um paciente morreu.
Novo demais.
Novo demais.

Entrei no carro e fiquei parada sem conseguir ligar a chave.

Meu celular vibrou.

Era ele.

“Você sumiu.”

Eu respondi:
— Hoje foi pesado.

Ele visualizou na hora.

Depois de alguns minutos, chegou um áudio.

A voz baixa.
Cansada.
Gentil.

— Você não precisa me contar nada… mas queria que você soubesse que eu tô aqui.

Eu ouvi aquele áudio três vezes.

E pela primeira vez em muito tempo, eu me senti menos sozinha.

O problema da distância é que ela faz tudo crescer.

A saudade cresce.
A curiosidade cresce.
A imaginação cresce.

Eu sabia a voz dele.
Sabia o jeito que ele ria.
Sabia quando estava irritado só pelo tempo que demorava pra responder.

Mas nunca tinha tocado nele.

E isso começou a me enlouquecer.

O flerte ficou perigoso depois disso.

Mais lento.
Mais íntimo.

Ele dizia:

“Queria ouvir sua voz agora.”

Eu respondia:
— Então liga.

Às vezes a gente ficava em chamada sem falar nada.

Só respirando.
Só existindo na companhia um do outro.

Como duas pessoas exaustas tentando descansar juntas mesmo longe.

Uma madrugada, depois de um plantão horrível, eu perguntei:

— Você acha possível amar alguém sem nunca ter encontrado essa pessoa?

Ele demorou pra responder.

Muito.

Depois veio a mensagem:

“Acho que a gente se apaixona primeiro pela forma como alguém faz a vida parecer mais suportável.”

Eu fiquei olhando pra tela sentindo alguma coisa apertar dentro de mim.

Do lado de fora do hospital, o céu começava a clarear.

E eu percebi, com um pouco de medo, que a melhor parte dos meus dias tinha virado alguém que eu nunca tinha abraçado.
Prof Eduardo Nagai
Enviado por Prof Eduardo Nagai em 04/06/2026
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