Acordo
e o mundo já aconteceu antes de mim.
Mensagens acumuladas,
notícias atravessando continentes,
vozes disputando espaço
dentro de uma tela que nunca dorme.
Há sempre algo para saber,
algo para responder,
algo para temer,
algo para desejar.
O dia começa cansado.
Corremos.
Nem sempre porque queremos,
mas porque tudo parece estar correndo.
Os relógios empurram,
os prazos empurram,
os sonhos empurram,
as contas empurram.
Às vezes nem sei
se estou seguindo um caminho
ou apenas acompanhando uma correnteza.
Vejo milhares de rostos.
Alguns passam por mim na rua,
outros surgem iluminados por algoritmos.
Conheço fragmentos de vidas distantes,
mas nem sempre encontro palavras
para explicar a minha.
Existe uma solidão estranha nestes tempos.
Ela não mora necessariamente no vazio.
Às vezes mora justamente no excesso.
Excesso de sons.
Excesso de imagens.
Excesso de gente.
Excesso de tudo.
Como uma praça lotada
onde ninguém sabe o nome de ninguém.
E, no entanto,
entre a pressa e o cansaço,
algo permanece.
Uma conversa que demora mais do que deveria.
O vento entrando pela janela.
O cheiro da chuva chegando antes da chuva.
Uma criança rindo sem motivo aparente.
Pequenas coisas
que o mundo acelerado ainda não conseguiu engolir.
Talvez viver hoje seja isso:
atravessar o barulho
sem deixar que ele ocupe todos os cômodos da alma.
Guardar um espaço de silêncio.
Proteger alguma delicadeza.
Continuar.
Mesmo sem entender completamente para onde.
Continuar.
Porque, em algum lugar entre o medo e a esperança,
a vida ainda insiste
em florescer.