× Capa Meu Diário Textos Áudios Fotos Perfil Livros à Venda Livro de Visitas Contato Links
Eduardo Nagai
O Seu Guia Literário
Textos

SENTIMENTO SUBLIME

Sim, eu conheci o amor

não aquele das fotografias felizes

nem o das promessas perfeitas

mas o amor humano, falho,

que treme nas mãos

e desaba em silêncio

quando percebe que não pode controlar o destino.

Amei como quem mergulha

num mar desconhecido

sem medir profundidade,

sem calcular correntes,

sem pensar no risco de afundar.

E afundei.

Houve noites em que meu peito

parecia uma casa abandonada.

Os cômodos da alma - vazios,

as janelas abertas para ventos frios,

o eco do seu nome

batendo contra minhas paredes internas

como chuva insistente.

Eu olhava o celular em madrugadas longas

como quem espera um milagre.

E cada ausência dela

era uma faca delicada,

dessas que não matam de uma vez,

mas lentamente

ensinam a dor a criar raízes.

O amor também possui ruínas.

Ninguém fala disso.

Ninguém ensina que existem abraços

que continuam queimando

mesmo depois do adeus.

Eu carreguei a memória dela

como quem carrega uma cidade incendiada

dentro do peito.

As ruas destruídas,

os prédios em pedaços,

mas ainda assim

incapaz de abandonar o lugar.

Porque amar é isso:

às vezes insistir na fumaça

porque um dia existiu fogo.

E houve revolta.

Houve perguntas lançadas ao teto.

Houve raiva do tempo,

raiva da distância,

raiva daquilo que não aconteceu

da maneira que sonhei.

Mas a pior dor

não foi perdê-la.

Foi perder a mim mesmo

tentando permanecer inteiro

dentro de uma história

que já estava se desfazendo.

Então veio o silêncio.

Não o silêncio vazio,

mas aquele silêncio cansado

que aparece depois das tempestades.

Aquele instante estranho

em que a alma para de gritar

porque já chorou tudo o que podia.

E foi ali,

entre os restos da desilusão,

que algo começou a nascer.

Não de forma grandiosa.

A cura nunca chega fazendo barulho.

Ela chega devagar.

Quase invisível.

Veio no gosto tranquilo de um café.

Numa música ouvida distraidamente.

Num sorriso inesperado.

Na capacidade de dormir sem lágrimas.

Na coragem de olhar o espelho

sem sentir culpa por continuar vivendo.

Até que um dia

o amor voltou.

Mas diferente.

Não veio como tempestade.

Não veio como urgência.

Veio como luz atravessando cortinas

num domingo silencioso.

Veio me ensinando

que amar não é desaparecer dentro do outro.

É permanecer inteiro

e ainda assim escolher caminhar ao lado, mesmo que distante.

Percebi então

que algumas pessoas entram em nossa vida

não para permanecer,

mas para abrir feridas

que o próprio amor precisará curar depois.

E eu fui curado.

Não porque esqueci a dor,

mas porque aprendi

que até as cicatrizes

podem florescer.

Hoje ainda existem saudades.

Ainda existem lembranças

que apertam o peito em noites específicas.

Mas já não doem como antes.

Agora parecem estrelas distantes:

continuam lá,

mas não queimam mais.

E quando penso em tudo o que vivi,

entendo finalmente

que o sentimento sublime não era ela.

Era a capacidade do meu coração

de sobreviver ao fim

e, mesmo assim,

continuar acreditando no amor.

Prof Eduardo Nagai
Enviado por Prof Eduardo Nagai em 17/05/2026
Comentários
O Crime da Arte R$ 54,81