Sábado à noite
escorre devagar
no copo gelado que eu seguro
sem pressa
lá fora a cidade respira
longe
aqui dentro
quem vive
é a memória
a espuma da cerveja
sobe
desce
como esse movimento
de nós dois
indo
e voltando
dentro de mim
cada gole
traz um riso antigo
um gesto teu
guardado no tempo
lembro do jeito
que você chegava
como quem muda
o clima do mundo
e tudo ficava mais leve
mais claro
como se a vida
finalmente soubesse sorrir
teu olhar
ainda mora em mim
teu toque
ainda atravessa
o silêncio
e entre um gole
e outro
eu entendo
há presenças
que não vão embora
a noite segue
a vida que segue
mas não é vazia
você ainda acontece aqui
no som baixo
no frio do copo
no peito
que insiste
em lembrar
e eu fico assim
meio inteiro
meio saudade
brindando sozinho
mas acompanhado
de tudo que fomos
e, de algum jeito
ainda somos